Desabafo: Não venha a Porto Alegre/RS

Hoje o post vai ser um pouco diferente…É uma mistura de desabafo com aviso, e sinto que é meu dever fazer esta postagem… em breve voltaremos à programação original! 🙂

Tenho 25 anos e incrivelmente já passei por MUITA coisa na minha vida.

Nos últimos 10 anos eu me formei no segundo grau, passei no vestibular, sofri a perda do meu pai para o maldito câncer, me graduei em um curso superior, ganhei um bolsa de estudos e morei por 1 ano nos Estados Unidos, fiz 2 anos de estágio passando por três empresas, completei 4 anos de trabalho de carteira assinada (totalizando 6 anos de experiência).

Destaco alguns outros exemplos importantes: conquistei minha independência financeira, completei 8 anos de namoro com uma pessoa maravilhosa, pago minhas contas em dia e claro pago impostos exorbitantes, e acima de tudo, respeito a história de todo mundo.

Esses foram apenas alguns dos destaques dos ultimos 10 anos da minha vida, teve muito mais…

Não posso reclamar, minha vida é muito boa, não é perfeita mas é muito boa.

Porém, depois de tudo isso, o MÍNIMO que espero é segurança, saúde, transporte e educação DE QUALIDADE.

Não posso falar pelos outros, mas moro em um lugar onde:

1. Quando preciso de atendimento hospitalar, preciso vagar entre hospitais buscando algum que tenha vaga e quando encontro fico horas na fila de espera (situação que ocorre mesmo utilizando plano de saúde).

2. Quando preciso me deslocar do trabalho para qualquer lugar, preciso contar com a sorte de encontrar algum ônibus com lugar para sentar. Aliás, a impressão que tenho é que o número de ônibus diminuiu, visto que as paradas andam lotadas e os ônibus mais ainda.

3. Houve um aumento ridículo de furtos, roubos, roubos de carros, homicídios, entre outros. Não consigo me sentir segura em nenhum momento.

4. Falta de policiamento, sem falar que quando vejo um policial, ao invés de me sentir segura, fico com medo pois sei que esse policial apenas está naquele lugar porque algo aconteceu ali.

5. Inúmeros animais abandonados.

6. Quando chove, é melhor sair de barco do que de carro.

7. Cidade mais suja que muita privada por aí.

8. Ensino público de péssima qualidade. Crianças sem saber efetuar contas simples e sem saber ler, mesmo já estando em séries mais “avançadas”.

Entre outros…

Enfim, mas hoje quero falar de um episódio específico que aconteceu dia 10 de Maio e que para sempre ficará na minha memória.

Vou tentar ir o mais direto ao ponto que consigo, embora seja difícil, já que eu sou detalhista demais.

Terça passada cheguei no trabalho 7:30 da manhã, fiz minhas obrigações e estava pronta para ir embora perto das 19hs.

Meu namorado geralmente me leva e busca do trabalho, porém neste dia em particular, quando ele chegou no estacionamento onde havia deixado seu carro, o mesmo estava fechado (?) e por isso, ele decidiu voltar para casa de Uber. Como ele não iria passar para me pegar, decidi que voltaria para casa de ônibus.

Quando cheguei na parada, lá estava uma lotação. Para quem não sabe, lotação, aqui no sul, é uma espécie de micro-ônibus, com menos lugares para sentar, que são mais confortáveis, possui também ar condicionado e é proibido que os passageiros fiquem de pé.

A passagem da lotação custa R$5,60, enquanto a do ônibus custa R$3,75, sendo assim R$1,85 mais cara. Talvez por essa diferença de preço, as pessoas acreditam que a lotação é mais segura, visto que nem todo mundo dispõe de R$1,85 a mais por passagem.

Enfim, decidi que iria pegar a lotação mesmo, já que ela estava lá. Logo chegou o ônibus que eu geralmente pego, veio um momento de dúvida, mas a dúvida passou e decidi seguir com a lotação.

Entrei e não notei nada de estranho. Sentei-me num dos únicos bancos disponíveis e seguimos viagem.

A lotação estava lotada. Haviam cerca de 20 pessoas, incluindo o motorista. A viagem seria curta, no máximo 15 minutos. Cerca de 10 minutos depois, próximo do local onde eu iria descer, 6 caras com o mesmo porte físico e com idade entre 16 e 25 anos que estavam no micro-ônibus, levantaram e se dirigiram para a frente da lotação.

Num espaço de 2 minutos (no máximo), eles renderam o motorista, anunciaram um arrastão e executaram o roubo.

Para quem não sabe, um arrastão é uma tática de acabar com tudo que você construiu ao longo dos anos que você trabalha e dá duro por uma vida melhor num país onde tudo o que não existe é ordem e progresso.

Ou em outras palavras, é uma tática de roubo coletivo, iniciado na década de 1980 na praia de Copacabana no Rio de Janeiro (fonte: Wikipedia, sim eu uso esse site).

O líder do grupo disse que queria apenas o celular e que era para todo mundo colaborar.

Veja bem que em 25 anos eu nunca havia passado por uma situação como essa. Lembro de uma vez quando eu era criança, que meus pais e eu estávamos comendo num bar e um indivíduo começou a assaltar todos que estavam lá, meu pai jogou nossos pertences pela janela e depois conseguimos pegar de volta, mas não considero esta vez pois não tinha nem noção do que tinha acontecido.

Portanto, não sabia como reagir e para falar a verdade na hora não lembrei de nenhum conselho recebido de amigos, parentes e colegas.

Tudo o que eu queria era que não roubassem nada que fosse meu. Nem parei para pensar na possibilidade de algum deles estar armado.

A primeira coisa que tentei fazer, e nem sei porque, foi abrir a janela. Vai ver eu pensei em pular da lotação e sair correndo.

Não tinha mesmo como sair da lotação, todos estavam na frente da porta.

Como não consegui abrir a janela e já estava sentindo um calor bizarro no corpo e com meu estômago revirando um pouco, peguei meu celular e sentei em cima dele. Aguardei a minha vez quieta e com raiva.

Logo, um MALOQUEIRO veio na minha direção e pediu meu celular. Ele não estava armado, mas nem por isso reagi. Estava sem ação e sem palavras. Eu sinceramente não iria entregar, mas aí ele abriu minha bolsa, que era bem pequena, e começou a procurar o celular. Ele levantou o tom de voz e começou a falar “cadê o celular?”. Daí, ele começou a procurar em mim. Nesse momento fiquei com medo, peguei o celular e entreguei para ele.

Depois de pegarem todos os celulares (pelo menos 10), eles saíram da lotação e um deles disse: “se alguém falar alguma coisa eu mato todo mundo.

A lotação seguiu viagem, cerca de três paradas depois eu desci e fui pra casa chocada com o que havia acontecido.

Como pode em menos de 2 minutos alguém roubar o que você, muitas vezes, demora para conseguir?

A falta de emprego e educação não são justificativas para ninguém sair por aí roubando as coisas que as pessoas de bem batalham para conseguir.

É ridículo dizer isso, mas eu me considerava uma pessoa de sorte por, ate então, não ter sido assaltada.

Não fiquei triste por não ter celular. Fiquei com raiva por um mal educado, atrevido, mau-caráter simplesmente roubar não apenas a mim, mas mais 10 pessoas.

Porque para eles tem que ser fácil?

Trabalhar que é bom e não mata ninguém, eles não querem, né? Trabalhar é dificil, cansa, exige, estressa.

Meu celular era novinho. Não tinha 3 semanas de uso. Eu comprei ele há mais de um mês e não havia usado ainda porque eu queria comprar um case e deixá-lo mais discreto e evitar ser o que? Assaltada. Ele havia custado R$2.200,00 e eu havia pago 1 parcela apenas.

Foi apenas um celular? Foi, mas e daí? Como eu já mencionei, eu trabalho, pago minhas contas em dia e compro o que quero e aí alguém se acha no direito de me roubar.

A noite de terça foi triste. Custei a dormir e ainda acordei de madrugada, coisa que nunca faço.

Estou imensamente envergonhada da cidade em que nasci. Aliás, do país… e esse tipo de situação só reforça o fato de que chegou a hora de ir embora.

Hoje quero deixar aqui uma mensagem: NÃO VENHA A PORTO ALEGRE, NÃO PORQUE NÃO É UMA CIDADE BONITA, MAS PORQUE NÃO VALE A PENA.

Porto Alegre deixou de ser alegre há muito tempo.

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